
No leste da modesta Ryplei, bairro bucólico da capital do país de Gales, morava a família Castle, um bairro de economia agropecuária e de famílias de essência campestre, 90% dos trabalhadores de Ryplei obtinham o sustento familiar através da agricultura.
Miguel Castle foi um famoso carpinteiro que tornou-se uma lenda em toda capital galesa pelas suas mirabolantes histórias e contos, um senhor engenhoso, boa parte do padrão arquitetônico de seu bairro fora desenvolvido por ele, um homem de família, orgulhava-se de sua bela mulher Rose Castle e do seu casal de filhos, Miguel Castle vislumbrava grandes conquistas e um futuro de realização para suas crianças, empenhava-se na educação dos mesmos, tinha isso como sua grande meta e prioridade, viveu a década de 50 focado na educação de Eduardo e May Castle, sua dupla de filhos. Em meados de 1951 Edu Castle vivia de modo introspectivo, menino de poucos amigos, fechava-se em seu quarto e contentava-se com a companhia de seus livros de fábulas britânica, era um adolescente de quinze anos, um profundo amante do folclore britânico, bem diferente de seu pai, um homem extremamente sociável, conhecido e respeitado por todos os cantos da cidade, já May dispunha de adjetivos marcantes, similares ao de seu pai, era amante incondicional da música, das arte cénicas, menina sonhadora e ativa em seus anseios, essas qualidades a tornava notória no ambiente escolar, no seu último ano no ensino médio conquistou inúmeros prêmios pelo seu destaque como aluna, May foi boa influência para seu grupo de amigos, ela lhes ensinava sobre suas novas descobertas e compartilhava com eles do seu talento prodígio, de modo simplório e sem arrogância ela considerava-se feita de um material diferente das outras pessoas que lhe rondavam, sua boa tendência musical distinguia-se do mercado fonográfico popular, seus apreços musicais e artísticos eram extremamente criteriosos e fugiam de qualquer tendência comercial, esse foi um período de grandes descobertas para ela, um período de sumo amadurecimento. Imperceptivelmente ela passou a compor um grupo diferente do qual ela estava habituada nos tempos de escola, época essa em que ela constituiu boas amizades, e é nesse período que surge as amizades permanentes, conheceu seu primeiro namorado, uma paixão forte e indissolúvel, um rapaz de expectativas e almejos distintos aos dela, no entanto, amavam-se incondicionalmente, nesse novo grupo do qual May Castle passou a compor, ela viu-se em situações peculiares pelo formato desse novo grupo, essas novas companhias lhe permitiam verbalizar ideias das quais ela nunca havia manifestado, talvez pela diferente maneira de concepção de seu primeiro grupo de amigos.
May Castle portanto, vivia um período de transição do ensino médio para o superior, nesses instantes pré-vestibular ela confraternizava frequentemente com novos amigos que passaram por essa época, nesse meio ela pôde evoluir e difundir suas tendências musicais nesse novo ambiente, pois esses novos amigos de certo modo dividiam das mesmas tendências musicais que as de May, naturalmente ela passou a ser mais presente nesse novo quadro, e em virtude dessas inúmeras confraternizações May viu em Edmundo Martin's um belo símbolo a ser seguido, Edmundo Martin's era o mentor e o regente desse novo grupo do qual May fazia-se presente, Edmundo não dispunha de grande beleza estética, ele era destaque por sua postura galante e nebulosa, sempre portando-se em tom de liderança, olhos convictos e de agressividade arrogante, todavia, um rapaz extremamente altruísta e de simplicidade invejável, criador das próprias leis e original em seus intentos, todos que conheciam Edmundo, mesmo os inadeptos a ele, assimilavam novos conhecimentos, ele dispunha de um forte poder de influência, e isso produzia na parte frágil dos seres que o acompanhavam um sentimento de profunda admiração e isso gerava nesses admiradores a prática de querer copiá-lo em suas ações.
Os adjetivos de Edmundo Martin's de certo modo atraiu fortemente May Castle, May além de gozar de grandes atributos intelectuais e de valores culturais, também era detentora de uma exótica beleza campestre, tom de pele sedutor pelo "rubor moreno", corpo desenhado, caminhar harmônico, cabelos no ar e olhar sorridente, moça de pernas bordadas, de tal modo May Castle também produziu um desejo de cobiça em Edmundo, mas era um sentimento que era alimentado de modo inconsciente, da parte de Edmundo em relação a May ele pensava: "May é uma bela moça de futuro promissor e que vive um momento de felicidade ao lado de seu namorado", da parte de May: "Edmundo é um homem determinado, de futuro imprevisto pela abrangência de suas artes, um ser galante bem quisto pelas mulheres, bom homem."
A saga de May e Edmundo não parou apenas em sentimentos de admiração, a paixão maligna visitou ambos personagens, eles estavam despretensiosamente numa interação coletiva dominical, quando um simples diálogo poético despretensioso desencadeou em um súbito romance:
- Hello pessoal tem lugar pra mais um nessa mesa?
Essa referida mesa era composta por sete pessoas, três moças e quatro rapazes, dentre esses presentes estava May Castle, e foi ela quem se manifestou:
- Claro Edmundo, sente aqui ao meu lado, afinal você é o dono da casa.
Tacitamente ele sentou-se e traduziu o tom subliminar nas palavras de May, com isso ele sentiu-se envolvido pelo clima que movia aquela mesa, era como se ele e ela fossem os únicos presentes, em poucos segundos ele levantou-se e foi para a extremidade da sala onde o movimento de pessoas era menor, logo em seguida May levantou-se rumo a Edmundo, ela havia deixado o copo na mesa e aproximou-se dizendo:
- Posso beber em seu copo?
- Tenha a bondade baby, beba com calma (direcionando o copo à ela).
- Obrigada, (apanhando o copo) por que se levantou da mesa?
- Levantei-me com o intento de atrair-te até aqui, vejo que meu plano foi bem sucedido.
- Por que dessa exclusividade?
- São raras as oportunidades que tenho de interagir contigo de modo mais íntimo, geralmente estás acompanhada de seu amor, seu namorado, afinal, por que ele não está presente aqui hoje?
- Infelizmente não estamos vivendo uma boa fase, sinto que nosso romance está esfriando.
- Lamento, mas a intenção não é falar do Adrion, e sim de você, como está sua preparação para o ingresso na universidade?
- Está fluindo bem, estou bastante otimista.
- Mantenha-se focada nisso, quero ver você maior, meu bem.
De modo instintivo e súbito, o então diálogo amistoso converteu-se em cortejo recíproco:
- É incrível como sua presença eleva a chama da ressureição, fazia tempo que não me deparava com esse tipo de transmissão, está justificado o porquê da obsessão exacerbada do Adrion para contigo.
- Em você também sinto e vejo um magnetismo incomum, existe uma sintonia assustadora que nos move, talvez você não tenha percebido, mas isso vem desde aquele dia em que te vi discursando publicamente aos seus "subordinados".
- Receio que essa nossa resistência seja inevitável, afinal, onde você vai a subconsciência me leva, sou conduzido a ti de modo sobre natural.
- Então me leve, me sinto leve em sua presença, leve-me daqui!
Edmundo fitou May:
- Estarei em poucos minutos lá no moinho do rancho Fleet, na parte mais remota do bairro, lá é um lugar deserto inabitado, esteja lá.
- Sim, onde você for eu vou, faremos daquele lugar nosso lugar!
O antológico "Moinho Fleet" ficou marcado pelos sucessivos encontros matinais e noturnos do mitológico casal Edmundo e May, um romance que passou por grandes embaraços, afinal a paixão que May sentia por Edmundo confrontava-se com o amor por Adrion, ela dividia-se nesse duro dilema, tamanho era seu carinho por Adrion por conta do belo romance de infância que eles viveram, isso produziu um grande remorso em May Castle, Adrion era um bom rapaz dedicado em suas responsabilidades e verdadeiramente apaixonado por May, incapaz de fazer algo que fosse magoá-la, esses pensamentos perturbavam a doce senhorita Castle, seu bondoso coração deslustrou-se, sensações ruins fizeram May abortar seu belo romance ao lado do bom Edmundo.
As ruas de Ryplei eram assombrosas pelas manhãs frias típico daquela região, as noites eram místicas pelos ventos sombrios que sopravam com ruídos tenebrosos e hipnóticos, o cenário rural e renascentista do humilde bairro ditavam o tom e o ritmo obscuro do romântico bairro galês, um bairro sem tradição em pubs e bares, mas conhecido por suas belas colinas, mesmo com ares perniciosos era um lugar bastante seguro e pacífico, e foi nesse cenário que surgiram os dêmonios que passariam a fazer parte da vida de Edmundo Martin's, o ponta pé inicial para as nocivas aventuras sobre naturais de Edmundo começaram no dia em que May lhe disse Adeus.
May de modo bem convincente e decidido, numa noite de sexta-feira treze num bar de jazz no centro da capital de Gales, disse a Edmundo que o amor que existia entre eles chegou ao fim, ela disse tais palavras repentinamente bem no meio da noite:
- Sinto lhe dizer, mas não vamos prolongar essa noite, pois aquela paixão compulsiva que sentia por ti apagou-se, pretendo dar um ponto final definitivo nesse enredo e enterrar nossa história no cemitério do esquecimento.
- Estou surpreso com tal decisão, de fato não era uma postura que esperava de ti, mas diga-me, o que suprimiu a paixão que sentias por mim?
- Descobri que sou incapaz de viver longe do Adrion, o espírito dele alegra minha mente, sou viciada em seu lindo corpo, esse amor obsessivo que sinto por ele foi confirmado ontem numa consulta que fiz ao oráculo Alistër, nem minha mãe conhece-me tanto quanto essa oráculo, uma mulher sábia que consegue traduzir meus desvarios mais profundos, desde então não me sinto bem ao seu lado, fatalmente essa chama que queimava entre nós se apagou para todo sempre.
Edmundo Martin's sempre manteve-se sereno diante de quaisquer situação, e dessa vez não foi diferente, mesmo com o coração quebrantado ele permitiu que May partisse rumo a felicidade ao lado de seu bom namorado, agora noivo, pois nessa mesma noite depois de ter se despedido de Edmundo, May anunciou seu noivado com Adrion.
A longa noite que marcou o término de Edmundo com May, foi carregada de males ocultos, Edmundo jamais havia ingerido tanto uísque irlandês, aqueles jazz que orquestravam sua dor eram o combustível de consolo para o maldito Edmundo.
Essa mesma noite, foi uma noite de alívio para May, pois ela estava tranquilizada por ter finalizado esse perigoso romance, agora podendo voltar para os braços de seu noivo sem preocupar-se com repercussões negativas que envolviam sua ex-paixão.
Naquela noite, Edmundo acordou numa casa antiga de madeira sem saber onde estava, era um "dark room", um quarto demoníaco ornado por figuras e estátuas eclesiásticas, no canto direito da sala estava lá de terno vermelho, sentado de modo imponente, Belzebul o príncipe das potestades do ar, o príncipe das trevas, mais conhecido com Satan.
Lúcido e exalando superioridade Edmundo levantou-se:
- Hello Satan!
- Bom dia Senhor Martin's!
- O que fazes e o que faço nesse ambiente ?
- Ontem a noite foi longa, bom homem, aquelas "kengas" foram vítimas de sua volúpia, vossa excelência mostrou-se demasiado profano e lascivo para com aquelas amáveis prostitutas, comprovou que o relacionamento humano é resolvido na horizontal.
- É verdade! Estou me lembrando, e foi nesse quarto que tudo aconteceu, lembro-me do convite que uma bela "coroa" me fez para vir até aqui, ela gostou tanto de mim que presenteou-me com suas funcionárias, bendita cafetina! A propósito, onde ela e elas estão?
- Levante-se homem, vamos andar, no caminho te explico.
- Sim, para onde vamos?
- Vamos para um lugar onde os puros de coração não podem pisar.
Na parte de fora do prostíbulo estavam dois carros:
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- Edmundo entre no Chevrolet e siga meu Ford, não posso dividir do mesmo carro contigo.
Satanás em forma de humano parecia-se muito com Jimmy Hendrix, porém de modo elegante, trajava um ofuscante terno vermelho escarlate, sapatos púrpuros, ambos entraram nos respectivos carros e seguiram rumo a uma encruzilhada próximo ao Lago das Lamentações a poucos metros do rancho Fleet.
Mr Martin's e Satanás estacionaram os carros a margem do Lago das Lamentações e seguiram para de baixo de uma árvore que ardia em chamas naquela deserta encruzilhada, Edmundo ansioso com o que o Diabo iria lhe propor retirou do bolso de seu terno um cantil de inox cheio de conhaque, conhaque esse que ele comprou numa viagem que fez a Pernambuco, estado situado no nordeste do Brasil, Edmundo deu um gole em seu conhaque e ofereceu ao Capeta:
- Não Mr Martin's, muito obrigado, eu lhe trouxe até aqui para lhe fazer uma oferenda.
- Ok Lúcifer, tenha a bondade de propor-me o que quiseres, use de sua astúcia milenar para me cativar, para que assim eu aceite sua proposta.
- Senhor Edmundo, tu és um rapaz admirado por muitos, um líder nato, amante incondicional do ser feminino, um homem de família e de muitos irmãos, de muitos amigos, eu te vejo como peça fundamental em meu quebra cabeça para angariar almas para o inferno.
- De fato demônio, você veio atrás da pessoa certa eu sei do poder de minha influência
- Pois bem, eu lhe ofereço riquezas e talento musical para que você me sirva em meus propósitos
- Receio que isso não será possível, pois mesmo eu sendo um ser influente, você veio atrás da pessoa errada, pois não sou conivente à suas maldades, estou do lado do mal, sou favorável ao meu conceito de maldade, seria incapaz de fazer algo contra o meu próximo, contra a humanidade.
- Você diz estar do lado do mal, Eu sou o mal propriamente dito, logo você deveria ser adepto às minhas causas
- Satanás, nenhum argumento que você utilizar, terá efeito diante dessa barba consistente e negra, recuso sua proposta, e quero que você... Ou melhor, o senhor, me permita fazer-te uma oferta.
- Claro que sim, pode fazer sua oferta.
- Ontem eu tive uma dura desilusão, mesmo confraternizando com aquelas lindas prostitutas, eu estava sofrendo por um amor que foi perdido, sei que jamais irei recuperar essa moça que me maltratou, mas queria apurar meu conhecimento e talento na guitarra para melhor tocá-la em tom de lamento por esse amor que um dia tive, quero que me dê essa aptidão e em troca eu lhe ofereço uma jam session gratuita em louvor ao seu nome, uma jam com minha banda em gratidão a esse auxílio que o senhor me concederá generosamente.
Dito isto, o Diabo ria abusivamente, entoou uma longa gargalhada e disse:
- Bom homem, seu humor é tão agudo quanto o meu, atribuir a mim adjetivos benevolentes como generosidade é no mínimo risível, acabei de perceber que realmente não conseguirei nada diante dessa sua barba consistente e negra, irei atrás de alguém mais maleável para persuadir.
Nesse instante Satanás juntamente com os carros evaporaram rapidamente e deixaram o senhor Edmundo sozinho, ele partiu até sua casa para descansar da longa noite que passou.
Assim que Edmundo despertou ele ligou sua vitrola na rádio local, estava tocando "Me and Devil" de Robert Johnson, ele pegou sua guitarra e acompanhou essa canção que simbolizava sua angústia, no final dessa canção ele decidiu estrear seus sapatos novos e caminhar pela praça arborizada perto de sua casa e tomar um chop no bar do Ocimar, no bar do Ocimar ele ouviu boatos de que May Castle havia mudado-se para Londres para estudar juntamente com seu noivo Adrion.
Semanas depois, Edmundo recebeu um telegrama de um conservatório brasileiro para que ele ministrasse um workshop de guitarra blues no Brasil na cidade do Rio de Janeiro, Edmundo em seus plenos 25 anos aceitou o convite afim de conhecer uma cultura distinta e suprimir as lembranças de May Castle que ainda o incomodavam.
Janeiro de 1952, enquanto a juventude de Ryplei migrava para o sul das capitais da Europa, Edmundo Martin's migrava para o nordeste brasileiro, essa caravana que partiu rumo às metrópoles europeias necessitava passar por esse estágio de descobertas, afinal eles não tinham a bagagem, o histórico e a envergadura de Edmundo para suportar a ida ao nordeste do Brasil, afinal os seres da família Martin's não temiam a morte, enquanto os seus amigos "patos" iam para o sul se descobrirem como ponto de desequilíbrio eles iam para o norte imperar e cultivar a malícia musical, subir nos palcos undergrounds numa turnê alternativa em louvor a música, onde o escárnio prevalecia.
Edmundo passou uma semana no Piauí conhecendo a escassez daquele curioso lugar, e foi na cidade do Pajeú que Edmundo conheceu alguns membros da família Correia, Edmundo estava num boteco com música ao vivo, o trio de forró que conduzia aquele show, encheu os olhos do deslumbrado britânico em terras brasileiras, Edmundo pôde testemunhar todo swing e tempero que os piauienses tinham, foi quando ele subiu no palco para uma jam session com o trio dos simpáticos velhinhos, os senhores do forró puxaram um baião em Lá maior e pela primeira vez um forró foi cantado em inglês em terras nordestina, Edmundo cantou e tocou sua canção "Girl of Castle", ouve aplausos e aceitação por parte do público que foi contagiado por aquele Baião-Blues, Edmundo desceu do palco grato pelo calor do povo nordestino e achegou-se até o balcão para tomar um conhaque, enquanto ele embriagava-se Raimundo Nonato mais conhecido como "Cachorro Preto" sentou-se ao lado do jovem Edmundo:
- Rapaz! impressionei-me com seu talento, o que te trás aqui no Brasil?
- Olá senhor, meu nome é Edmundo, vim ao Brasil para ministrar um micro curso de guitarra blues na cidade do Rio de Janeiro, esse workshop começará apartir da semana que vem, estou fazendo essa turnê pelo nordeste brasileiro afim de conhecer novas culturas.
- Muito bem jovem, nesse caso lhe deixarei um ensinamento, nos bares e nas noites cariocas você irá se deparar com situações inusitadas inexistente em outros lugares do mundo, quando estiveres na Lapa próximo ao Circo Voador não se escandilize com o que a de ver, quando fores abordado pelos demônios dos becos noturnos diga a eles que tu és um enviado de Cachorro Preto pois assim eles irão te respeitar e lhe auxiliar em suas buscas.
- Grato pela dica, caso eu me encontre com esses referidos demônios irei me lembrar de seu nome.
-Sim garoto, faça isso, saiba que os único que foram capazes de persuadir e derrotar esses anjos maus foram três sobrinhos meus que moram em São Paulo, eles são conhecidos por lá como "A Linhagem Real".
- Antes de ir para o Rio eu pretendo passar em São Paulo, me sentiria honrado de conhecer esses três senhores, "A Linhagem Real".
- Todas as sextas eles tocam seus blues numa casa do norte conhecida também com o Beco do Blues próximo ao metrô Ana Rosa, esteja lá e testemunhe a imponência desse trio de homens que honram o nome da família Correia.
- Estarei lá, grato pelas recomendações.
- Boa sorte nessa sua saga.
Edmundo passou dias de alucinações no Piauí, atormentado pela penúria do lugar e abençoado pelo espírito farto daquele povo feliz, absorveu lições de profunda sabedoria passada pelos patriarcas locais.
Mr Martin's passou a véspera da tão esperada sexta-feira se preparando e treinando em sua guitarra para impressionar a Linhagem Real.
Na manhã de sexta feira ele já havia ingerido altas doses de uísque, uma preparação pseudo-morfo para melhor se manifestar, na noite de sexta-feira, ele desceu do táxi rumo ao endereço que o Lord Cachorro Preto havia lhe passado, entrou no local situado no beco do blues e sentiu-se acolhido por aquele clima musical extremamente underground, viu o fulgor do dueto de guitarra e gaita expressos por Nivas Guerras e Correia Bluesman respectivamente, encantado com o que via e ouvia, pediu ao garçom que trouxesse uma dose tripla de vodka, o brilho que Edmundo emanava chamava a atenção das moças presentes no show, certa moça de cabelos longos e pescoço fino aproximou-se de Edmundo:
- Olá rapaz!
- Hello baby!
- O que trás um rapaz tão doce como você a um lugar tão obscuro e lascivo?
- Eu vim para testemunhar a mística do show da banda "Cachorro Molhado", eu soube que o guitarrista e o gaitista são membros da estimada Linhagem Real.
- Sim, aquele de boné e cabelos emaranhados que está fritando na guitarra é o Nivas Guerra, o careca barbudo que harmoniza em sua gaita é o Correia Bluesman e aquele forte que está sentado naquela mesa vip com aquelas prostitutas é o Renato mais conhecido como Son of gun.
O nome de batismo da moça que apresentou os membros da Linhagem Real para Mr Martin's é Mary Angel, curiosamente o nome dessa moça que atraiu-se por Edmundo era de pronúncia inglesa, tamanho foi o magnetismo que os envolveu, eles conversavam e contemplavam o show movidos por uma sintonia plena, e por um silencioso desejo, tácito, porém revelado nos olhares, antes que essa moça tragasse Edmundo e o levasse para outro ambiente, ele levantou-se interrompendo o belo clima dizendo:
- O único membro da Linhagem Real que está desocupado agora é Son of Gun, por isso, irei me achegar a ele afim de saudá-lo.
- Não faça isso bom rapaz! Para se achegar a um membro da Linhagem Real, você terá que passar por critérios rigorosos de avaliação, e se você bem observar verá que o senhor Renato está bem ocupado com aquelas lindas mulheres.
- E o que tenho que fazer para ser avaliado?
- Você já está sendo avaliado, todos forasteiros e novatos que entram nesse bar são observados, aqui nesse lugar as paredes tem olhos.
Mesmo com as recomendações da doce moça, Edmundo atreveu-se e aproximou-se do lendário Son of gun e o saudou estendendo a mão:
- Olá Renato, prazer em conhecê-lo!
- Quem é você para dizer meu nome em vão? Não lhe dei tal liberdade, abaixe essa mão (com olhar agressivo).
- Perdoe-me Senhor, eu vim sob orientação do lendário "Cachorro Preto".
- Está justificado o porquê de sua audácia, sendo assim aproxime-se e sente-se.
- Sinto-me honrado por assentar-me ao lado de um autêntico Correia.
- Aproveite rapaz, poucos gozam desse privilégio, beba e curta o show, afinal, como conheceste o Cachorro Preto?
- Estive pelos cantos remotos do Pajeú, num bar de baião, nesse dia toquei um Baião-Blues juntamente com os músicos locais, Cachorro Preto admirou-se com meu feeling de guitarrista e concedeu-me a graça de vir até aqui para que vocês me aconselhassem na minha maratona nos perigosos becos da Lapa.
- Qual é seu nome jovem?
- Edmundo Martin's!
- Edmundo, olhe para o palco, veja, se tu tocares 5% desse som que o Nivas guerra emite em sua guitarra, se você deixar sua barba negra crescer na mesma proporção de consistência daquela que você está vendo na face do meu Irmão e conseguir verbalizar o sentimento que ele expressa em sua gaita, você não terá problemas nas encruzilhadas cariocas, afinal, você sobreviveu diante do lendário Raimundo Nonato e bebeu na mesma mesa que eu, acredite bom rapaz, você não terá problemas caso encontre com aqueles anjos maus, agora levante-se, vá e siga seu caminho, esse lugar ficará perigoso para você jovem galês.
- Muito obrigado pelos conselhos, e como soube que sou natural do País de Gales ?
- Eu sei das coisas, agora vá.
Edmundo retirou-se do Beco do Blues e foi para o hotel refletir sobre as palavras de Son of Gun, nessa noite ele foi atormentado por uma profunda insônia, pouco dormiu, entretanto acordou disposto para pegar seu voo com destino ao Rio de Janeiro.
Edmundo passou momentos maravilhosos na cidade maravilhosa, ele respeitou os conceitos e as coordenadas que Son of Gun lhe transmitiu, tal postura possibilitou o sucesso em seu Workshop de rifes de guitarra para jazz e blues que ele ministrou na UFRJ, ele também teve êxito na via-sacra noturna naquele envenenado bairro conhecido como Lapa, procedeu de modo difuso nas tendas de percussão carnavalesca, nas mesas de samba, nos botequins de todos gêneros de jogatina, adequou-se a todas as tribos residentes alí, o clima tropical e a maresia que infectava solenemente seus pulmões ativaram em sua memória as doces palavras da amável Mary Angel, a arquitetura tombada daquela região e o alvoroço exacerbado da famosa Lapa ludibriaram positivamente o senhor Edmundo exibindo de modo ilusório a imagem daquela paulista zelosa que o encantara no Beco do Blues em São Paulo, tal efeito sugeriu a Edmundo que voltasse a São Paulo a fim de confrontar-se novamente com esse pseudo-passional proveniente da curta interação entre Mr Martin's e a doce Angel, contudo, ele optou por voltar a sua terra natal antes que esse sentimento o consumisse, retomou a lucidez e embarcou para Gales.
Já em seu berço materno Edmundo canalizou todo aprendizado passado por aqueles astutos brasileiros para suas áreas profissionais e de entretenimento, agregando tais conhecimentos para melhorar sua saúde financeira através de seu talento musical, o período da ausência de Edmundo passou desapercebido por parte de seus amigos, pois eles estavam focados em novas buscas profissionais, contudo a ida de Edmundo ao famoso bar do Ocimar na pequena Ryplei coincidiu no feliz encontro com boa parte de seu grupo de amigos, era a noite de apresentações musicais nesse modesto boteco e essa foi a oportunidade para Edmundo mostrar o seu crescimento musical adquirido nas noites brasileiras, ele subiu ao palco e tocou com grande swing e feeling uma música que aprendeu no Brasil chamada "Olinda Dolly" (Boneca de Olinda), enquanto Mr Martins executava esse blues latino, May Castle surge radiante e depara-se com sua antiga paixão no palco expressando um forte sentimento cantado em português, a presença de Edmundo avassalou com o brilho de May, a música que Edmundo tocava no palco o atormentava, pois essa canção lhe propunha voltar ao Brasil para reencontrar com a bela índia do pescoço fino e de nome britânico, novamente a presença surreal de Mary Angel pertubava Mr Martins, de longe May tentava comunicar-se com Edmundo oticamente, quando ele finalmente desceu do palco coberto de aplausos May Castle o abordou sem hesitação:
- Quanto tempo!
- Hello May, como o tempo te valorizou! Mui bela! Vejo que Mr Adrion está te fazendo muito bem.
- Você como sempre muito simpático, mas não atribua minha evolução ao meu noivo, nos amamos muito, porém nossas inúmeras incompatibilidades está me desgastando por demais.
- O amor basta, esse é o ingrediente principal para sustentar uma relação a dois, ainda que haja desgaste, stresse e renúncias em prol da paixão avassaladora, o sorriso de felicidade movido pelo amor compartilhado entre o casal compensará tais sacrifícios, isso vos mantêm feliz, vos faz bem, tenho que aludir e creditar sua boa forma ao seu grande amor, pois ele é o maior contribuinte de sua felicidade, ele alegra seu espírito, seu corpo aceita o dele, e isso lhe faz bem, lhe faz bela.
- Ouvi boatos de que esteves no Brasil, como foi lá no país do carnaval?
- As situações que experenciei e as pessoas com as quais vivenciei foram extremamente marcantes.
E o que houve de tão marcante?
- Quer que eu enumere por ordem alfabética? A peculiaridade do brasileiro é algo incognoscível para ti, saiba que boa parte do meu crescimento recente como humano eu credito a eles, o timbre e a gana que eles me transmitiram com ações práticas moldaram minhas concepções, só lamento não ter dado maior destaque para um certa moça de São Paulo, estava focado no ensinamento que a Linhagem Real iria me passar tanto no palco quanto fora dele e por isso não pude dar prioridade à ela, porém estou considerando a possibilidade de voltar ao Brasil para reencontrar a doce Mary.
- Vejo que essa moça é muito especial (num tom carregado de desdém).
- De fato, eu compartilhei com ela dos meus deslizes e erros cometidos em certos empreendimentos, as sinceras palavras de incentivo dela falaram alto ao meu coração, ela não mostrou interesse em meu dinheiro; quando estava no Rio de Janeiro, enviei a ela presentes valiosos, ela recusou todos alegando que na verdade queria uma lembraça de valor sentimental, uma moça desprendida de valores materiais, rica de sabedoria e abundante em sua beleza padrão.
As palavras de Edmundo emudeceram a bela May, logo ela recobrou a consciência dizendo em tom inconstante e desentoado:
- Confesso que fiquei parcialmente enciumada, pois tu és verdadeiro em suas palavras, mede muito bem aquilo que diz, nunca usou de dissimulações para comigo, a minha dúvida e indefinição sentimental vem me pertubando desde o dia em que te conheci, oscilo entre o amor que sinto por Adrion e as lembranças da nossa ex-paixão, percebi que os benefícios que o bom Adrion me proporciona não são suficientes para me saciar nessa curta e longa vida...
- É só isso que tens para dizer? Prossiga.
- Quero retomar nosso antigo enlace, estou disposta a renunciar meu noivado, quero casar-me contigo, venho remoendo isso a semanas, finalmente tive a oportunidade de vê-lo para manifestar esse sentimento assombroso.
- Linda May, saiba que jamais esquecerei da nossa quente paixão, caso você queira engrenar comigo novamente eu estarei a disposição, eu seria incapaz de negar fogo à mulher que me fez vibrar, no entanto não pretendo cultivar aquilo que seu noivo não soube terminar, porém, hoje isso não será possível, tenho um encontro com meus familiares logo mais, irei anunciar a eles minha ida definitiva para o Brasil, pretendo voltar a São Paulo e por lá ficar, quero reencontrar Mary Angel, serão raras as oportunidadades em que virei a Ryplei a fim de visitá-los, quero me estabilizar por lá, estarei aqui por mais três dias, se o caso for me ligue, tome meu cartão com meu novo número, aguardo ansioso por sua ligação, até (colocando o cartão em seu decote acintoso).
May não compreendeu muito o que Edmundo disse, apenas o observou virando-se e saindo daquele salão esfumaçado.
Edmundo passou esses três dias despedindo-se dos inúmeros camaradas residentes em toda capital galesa, passou por um ritual de despedida familiar onde seus irmãos lhe concederam a requerida benção já que seus falecidos pais não podiam, no terceiro dia ele partiu para São Paulo sem saber se seria aceito por Mary Angel, entretanto, ele foi otimista e altamente empolgado, pois assim com dizia a bela May Castle, "o talvez torna a vida um pouco mais atraente".