quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Arca do neo



 A arca do novo mundo está sob o comando do grande Ministro, aquele que guiará os remanescentes a um novo ciclo pós apocalíptico, o grande Ministro que detém o leme da embarcação é chamado de lorde junto aos mais nobres, pelos mais íntimos conhecido por capitão, os ímpios o proclamam almirante, pelos gentis chamado de Mediador, pelas crianças notado como barqueiro. 

 Tamanho é o fardo desse grande líder, selecionar os remanescentes para continuar a vida em um novo continente, uma tarefa ingrata e doída, levá-los a um continente que brotou milagrosamente do mais profundo oceano, uma terra nova de águas cristalinas a sua borda, hábeis pescadores portanto, serão necessários a bordo da arca para garantir os frutos desse vivo mar, há a expectativa de gigantescas árvores que invadem as nuvens, assim, pés ligeiros e mãos elásticas serão essenciais para apanhar frutos dos altos galhos, uma terra fértil não ao ponto de emanar leite, mas não seria surpresa se dela germinasse mel, um território próspero e dinâmico que precisará de bons líderes para garantir sua sustentação e prosperidade, não basta então o bom barqueiro selecionar hábeis mãos, braços fortes, mente inventiva e primorosa, será necessário transcender o primor e encontrar pensamento agudo, mente sensível, perceptiva, a composição do novo mundo precisará de entendimento em meio as ambiguidades.

 Uma busca difícil por exigir novos conceitos e concepções inéditas, terá então esse mediador que meditar sob o escopo do improvável, terá que se despir de vaidades, de convicções e padrões pré estabelecidos, essa lavagem interna eliminará valores e preceitos contaminados pelo velho mundo, mundo que ficará pra trás deixando algumas boas saudades, mundo que deu errado em meio a tantas certezas.

 Pobre barqueiro, talvez não sobreviva durante o longo percurso rumo ao novo mundo, a tempestade externa pode sim naufragar a arca antes que ela chegue a seu destino, embora uma tempestade interna seja mais provável, diria até que mais destrutiva que os fenômenos da natureza. O grande Ministro padece ao mediar as tantas facetas que enfim embarcaram, o dilema das diferenças que se confrontarão na fundação do novo mundo já dá um aperitivo a bordo da arca que finalmente partiu, um recomeço que inicia turbulento, o excesso de contingente obriga a arca a partir condenando os que ficaram para trás.

 Aliviados e inconformados já ensaiam conspirações em oposição ao grande Mediador, a ala do norte indigna-se pelo excesso de idosos, a ala do sul pelo excesso de crianças, a seleção diversificada do capitão indignou a ala do centro, centristas presos a velha conduta almejavam por uma arca monocromática, com a menor diferença possível, a ala dá direita se opunha ao Lorde por discordarem do alto número de passageiros, julgavam desnecessário a quantidade de incompetentes que ali estavam, já os componentes da ala da esquerda planejam a derrocada do almirante por estarem insatisfeitos com a baixa lotação da embarcação, alegam a má distribuição do espaço na barca, espaço este que comportaria um maior número de tripulantes, diminuiria então o número dos deixados para trás.

 O Mediador segue sua viagem com destino ao novo mundo, resta saber se ele sobreviverá, se resistirá a força das diferenças, se viverá pra ver a tentativa de um recomeço.

 Mesmo em meio ao conluio, o grande Ministro sabe que esse reinício não tem espaço para a utopia e nem tampouco para a supressão militar, ele então inventa alternativas, improvisa ao liderar, se mistura aos privilegiados que ganharam uma segunda chance de recomeçar.

 A subsistência está lançada à sorte, a arca chegará a seu destino após essa longa jornada?  

 Quem vai saber?

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