quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Quem vai saber?


Seguradoras de automóveis têm por princípio estabelecer critérios e valores mais rigorosos em contratos firmados com jovens entre dezoito e vinte e nove anos, nessa faixa etária a tendência de acidentes é enorme, muitos desses jovens baladeiros após saírem embriagados de baladas (“balada”, que termo horrível) tendem a se arriscarem mais, é comum nessa fase de descobertas saírem eletrificados com estrondosas ondas sonoras e batidas que eles erroneamente classificam como música, a filosofia de tais jovens (não medimos nem tempo e nem medo) assustam as seguradoras, por falar em morte e acidentes, vamos falar de mortes honrosas, o sacrifício de Jesus Cristo no calvário é certamente uma das mortes mais marcantes da história da humanidade, mortes que envolve auto sacrifício ou martírio por uma causa geralmente são mortes memoráveis e merecedoras de homenagens, poderíamos enumerar uma série de grandes personagens históricos e míticos merecedores de tributos por conta de seus feitos, mesmo respeitando os honoráveis personagens épicos, continuo preferindo o gesto que culminou na morte de Sonny Boy Williamson, o esforço exagerado que ele utilizou para salvar a mulher que se afogava no rio Mississipi me enche de orgulho, todo esse pensamento me ocorreu por causa de um acidente de carro que sofri com um certo camarada, não morremos por sorte, um acidente fatal, nos salvamos por muito pouco, foi a primeira vez em que senti a morte de perto, tal ocorrido foi tratado com muito bom humor por um certo camarada, ele utilizou de minhas palavras e disse que se porventura eu morresse nesse acidente eu seria severamente punido quando o encontrasse no mundo dos mortos, a punição seria por conta da desonrosa morte, alegou que morte em acidente de carro é coisa de baladeiro deslumbrado, e ainda emendou com enorme eloqüência, “ Correia meu caro, você morrerá esfaqueado por uma namorada ciumenta, por uma bala perdida em uma de suas inspeções no Pernambuco, ou coisas assim”, dito isto, ri abusivamente dessa sábia referência atribuída a mim.

Como você gostaria de morrer?

Já ouvi sábias respostas dada à essa pergunta, uma pergunta que sei responder, gostaria de morrer no limite da minha condição física, bem velho, deixando o meu legado para meus filhos, sem remorsos ou arrependimentos, uma morte súbita, porém não trágica.

A irremediável morte nos leva a imaginar como será o pós morte, há teorias sobre um lago de fogo que arde com enxofre, muitos serão lançados nesse lago para o tormento eterno, falam acerca de uma nova Jerusalém celeste onde seus afortunados residentes se deleitarão eternamente nas bodas do Cordeiro, essas são as explicações mais famosas sobre a realidade reservada aos mortos, se elas são reais não estou na condição de garantir e nem de crer, não sei ao certo o que me reserva quando eu me despedir do meu corpo terreno, talvez eu me depare com o nada, talvez minha consciência se extinga , gostaria de poder continuar consciente e ascendente numa vida após a morte, os meus prováveis cinqüenta e três anos que me restam são poucos para entender o prazer, atender a paixão, com eles certamente virão muitas dores, surpresas, nessa evolução contínua eu não me permito me acostumar comigo mesmo, nem com ela, nem com elas, quero surpreendê-las, quero ser surpreendido, quero a cada dia admirar, ser admirado, sem parar no tempo, com meus irmãos e irmãs que me ensinam a tecer o amor enquanto se ainda vive, são eles que queria encontrar quando morrer, quero evoluir ao lado deles num cenário multi físico, sou a favor da eternidade, contudo, fatalmente não sei se será possível continuar, não se sabe quem é que regi essa magnífica realidade inexplicável.

Não se sabe!

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Viver é melhor que sonhar

O ato de sonhar em si é uma das práticas mais bem sucedidas do ser, nele, no sonho, concretizamos ações que fogem das limitações físicas, somos divinos e demoníacos, no sonho não sabemos ao certo se somos demoníacos ou divinos, quando estamos sonhando o nosso principal bem fica em repouso, em recuperação, através do corpo sentimos sensações, prazeres, dores, através do corpo sonhamos, imergimos no mundo metafísico, no mundo criativo, no mundo criado, ao sonhar caminhamos em velocidade corrida, corremos e não acompanhamos o andar , conseguimos reunir ídolos de épocas distintas, no sonho estamos em contínua metamorfose, se é possível perder os pelos, as banhas, o cabelo cresce, a estatura diminui, nos tornamos crianças com volúpia adulta, o grito é tácito, o sussurro é estrondoso, nele tudo é lícito, fácil, o sonho quando difícil lança o despertar, o caso é que o sonho traz tudo e todos ao sonhador, tudo e todos em um mesmo espaço, basta sonhar e tudo lhe será permitido.

O ato de viver é penoso, para viver devemos seguir leis, ordens, padrões, disciplinas de diversas vertentes, é necessário a supressão da vontade para não ser dissolvido da vida, viver diferente de sonhar abrange limites, as sensações do viver extrapolam as imensidões que compõem o sonho perfeito, o gozo da vida real prevalece sobre o frenesi de quando sonhamos, sobre a alucinação e o delírio do supremo prazer adquirido no sonho.

Aos cinco anos de idade sonhava com meu irmão mais velho, eu, ele e os demais na praia em plena harmonia, porém, a sensação de vê-lo chegando em casa cansado de tanto trabalhar me produzia uma alegria muito maior do que a alegria vivida na lúdica praia.

Não conseguia estimar o quão prazeroso seria fazer par com a moça mais bela do primário na quadrilha da festa de São João da escola, estar com ela no sonho era algo memorável, todavia, quando ela pegou em meu braço e com um profundo olhar me selecionou, fiquei bastante surpreso, contive minha euforia sem abrir mão do prazer de dançar com a tão ambicionada menina.

Nesse conflito entre o prazer sonhado e o prazer vivido existem controvérsias pelas vantagens e desvantagens de cada situação, quer seja ela no sonho ou na vida real, por considerar isso, analisei ambas situações experenciadas por mim ao longo dos últimos anos e percebi que viver é melhor que sonhar.

Quando dei o primeiro abraço em Larissa Conforto senti o conforto da vida real.

Quando olhei pro palco e entendi que ali estava Buddy Guy afastei de mim a dose tripla de uísque para me manter acordado diante da bela realidade que me fora concedida.

Ver o rei do Blues B.B.King ao lado de minha Rainha triplicou as doses de vinho que me eram servidas e através dessas doses exageradas minha garganta pode confirmar que eu estava acordado.

Contudo, mesmo sendo capaz de distinguir a realidade do sonho, sustento uma dúvida cruel, todo ser mistificado assim como deuses e lendas são objetos e personagens de sonhos, ao longo da minha real vida mistifiquei uma personagem real em meus sonhos, uma personagem distante em idade, tamanho, força, prestígio e toda sorte de valores positivos, a razão pela qual eu a mistifiquei se deu ao fato da impossibilidade de uma criança atender o desejo de uma linda mulher, de fato se trata de uma linda e preponderante mulher, enquanto eu aprendia a ler ela ensinava os meus educadores a me ensinar, em meio a tantos sonhos a bendita ampulheta do tempo a pôs em meu caminho novamente, pôs o rebelde menino hoje homem barbado diante da ainda perfect mystical woman, estive diante dela em tantos sonhos, em diversos continentes, planetas, refúgios, paraísos, nos sonhos sempre me dei muito bem diante da supremacia dessa querida personagem, contudo, estar diante de seu profundo olhar, do seu escondido sorriso foi algo além do que eu pude agüentar, fui reduzido, dissolvido por completo, não pude resistir a tamanha graciosidade, resta agora descobrir se esse mencionado prazer de estar junto da admirável Nancy Agostinho foi real, não saberia dizer se ela realmente estava ali, apenas eu e ela, será que estávamos, será?

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Coisas que aprendi nos discos.


Era frustrante ter que desenrolar as fitas que se enroscavam nas entranhas do meu antigo aparelho de som k7, mais frustrante ainda era ter que esperar pelos domingos para gravar raros clássicos do blues transmitidos por uma rádio paulista hoje extinta, época em que ainda vivia sobre carrinhos de rolimã, período das coleções de figurinhas, de tantas coleções, desde cartuchos de vídeo game a gibis da Marvel Comics, das coleções mais incomuns que ostentava, a única que me orgulhava era a minha exclusiva coleção de fitas k7 sobrecarregadas de belos blues chiados, elas possuíam valores intangíveis, sobretudo para um menino de onze anos. O conteúdo dessas fitas me mostrou a bela praça de guerra configurada na estrutura não planejada do largo de Osasco, ao passar por lá visualizava a esplendorosa cena dos cinemas, descer a Primitiva Vianco era como aprofundar-se em minas em busca do garimpo de valiosos vinis, contemplar a passagem do trem na terra do cachorro quente trazia-me a cena do adeus, dos abraços, dos encontros, em muitas vezes eu substituía os trilhos por trincheiras e mergulhava no cenário de combates épicos.

A perversidade e a malandrice me foram apresentadas com intensidade nessa época de pré-adolescência , estava eu dentro de uma podre Kombi repleta de negros e brancos suados com destino à zona leste, rumo aos campos de várzea de favelas paulistanas, do banco de reservas assistia a temporada de caça ao meu irmão primogênito, ele deslizava pela lateral, mas logo era derrubado, os predadores eram caprichosos e infalíveis diante da genialidade e finura de meu irmão, eram exatos e mais uma vez ele ia para o chão, quando enfim ele escapava e arrancava o brado da torcida o apito final se tornava sua principal inquietação, pois a mesma desenvoltura mostrada em campo diante de afoitos zagueiros ele teria que demonstrar ao me pegar pela mão e desaparecer daquele prélio, pois certamente haveria uma prestação de contas por conta de sua ousadia mostrada com a bola nos pés, em ambientes como esse, o que acontecia dentro de campo não morria ali, teria continuidade fora dele, e os riscos eram enormes, as conseqüências poderiam ser fatais.

A incapacidade dos meus pais de medir conseqüências ruins me permitiu participar de lugares inabitáveis por crianças ou menores de idade, como se não bastasse eu ser a única criança em meio aos aventureiros eu também carregava um facão afiadíssimo e compunha a cúpula de retaguarda que vigiava os males que poderiam surgir naquela mata, explorei terrenos de diversas naturezas, pontes comprometidas a mais de quinze metros, lama até os joelhos, descidas em perigosos relevos, tudo em busca do cenário perfeito, de cachoeiras, riachos, buscávamos mesclar a sintonia da natureza com a música e o ócio, as “Evas” presentes acompanhavam seus “Adãos” com virilidade atípica, porém típica em artistas dessa natureza, vivíamos o Éden do mal, onde os frutos não eram proibidos.

Muitos anos atrás me disseram que a história estuda o passado com a finalidade de compreender o presente, uma frase clichê cujo a qual não respeitei quando ouvi, esses episódios que foram brevemente mencionados aqui, foram situações que descrevi ao meu irmão caçula, pois ele me perguntou o que eu fazia quando tinha sua idade, quando tinha onze anos, ao mencionar tais episódios ele me disse:

- “Está explicado porque você é assim”.

Dito isto passei a respeitar a frase que julga o intento do historiador, compreendi seu teor, concordo com o dito que diz que para se compreender o presente devemos buscar respostas em episódios passados. Na mesma linha de raciocínio me disseram tempos atrás que a sociologia bem como outras ciências sociais têm por finalidade destrinchar e investigar as causas do presente para melhorar o futuro, ao refletir sobre esse conceito, eu avaliei o meu presente, tentei compreender minhas atuais ações, após essa avaliação pude enxergar o meu futuro, e foi a partir de então que o cerco fechou.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Lenitivo


Qualquer ser racional pode responder a pergunta - o que é a vida? - Tal pergunta produz respostas de multifacetas, diria até que divertidas, respostas de criatividade incalculável, nessas respostas também encontramos definições exatas do conceito literal de vida em seus elementos essenciais, a verdade é que quaisquer resposta que visa desvendar a vida em seus mistérios é digna de respeito e reflexão, pois cada ser que se dispôs a responder essa espinhosa pergunta reuniu informações e experiências extraídas de particularidades de um certo grupo ou de individualidades de um determinado ser, ainda que essas definições tragam consigo conteúdos sobrenaturais sem fundo de evidências na tentativa de explicar a vida, não podemos deixar de considerar a experiência descrita, ao passo que, ainda que haja uma resposta que defina com propriedade e relativa sabedoria o que viria a ser a vida, essa “aceitável” resposta bem como as “banais”não soluciona o enigma inerente à pergunta, portanto, todas as respostas se equiparam em resultado.

Ousei perguntar o que é a vida a benévolos, a ímpios, a jovens e idosos, a orientais e ocidentais, a gregos e troianos, ao ter as respostas percebi um conceito unânime encontrado em todas elas, respostas provenientes de distintos seres, mas que carregam um desejo em comum, encontrei em todas as descrições sobre a vida um “Porém” implícito, um tom de adversidade posto sobre a própria afirmação dos porquês da vida, veja, essa idéia empregada na descrição que antagoniza-se com a idéia defendida pelo próprio descritor, não é exatamente um paradoxo, mas sim a necessária manifestação dos pesares que compõem a vida, logo assim, a exposição desses pesares é um modo de atenuar o fardo pesado de viver, não obstante aos prazeres da vida é claro, porém, tais prazeres deixam de existir quando surgem inevitáveis algozes ligados a vida, assim portanto, conseguimos identificar o desejo em comum em todas as respostas, se trata do desejo de lenir a dor, desejo de abrandar a angústia que surge quando respondemos essa difícil pergunta.

Atrevi-me a me perguntar o que é a vida, enquanto ponderava a resposta, pensei nos combustíveis que irei queimar, nos cocos que irei cantar, nas cartas, nos descartes, no descarte, nas cantadas, cânticos e canções, considerei decisões, omissões, riscos e certezas, após isso, tive a certeza de não me arriscar em responder uma questão tão embaraçosa, não me afobei, não me apressei, poderia até responder a pergunta e na resposta encontrar a solução pro indecifrável, contudo, não tive pressa e com quarenta graus de febre olhei pro garçom e pedi uma doce dose de uísque.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

"Embarque nesse Carrossel"


O Carrossel gira em velocidade tênue, belos pôneis, lindos alazões, quadrúpedes inanimados, suportam em seus dorsos celebres personalidades, pobres eqüinos, forjadas em seus lombos celas que acomodam cavalheiros e cavaleiros, não há quem não seja cavalgante nesse súbito carrossel, há montaria para todos os gostos, são todos muito bem coloridos, tem amarelo, tem vermelho, tem cavalo preto, tem branco, tem alado e até córneo, uma diversidade, pois bem meu bem, enquanto o carrossel gira em torno do sol me perco, observo os selecionados montados, logo à esquerda vejo o embolador de improviso que leva a raiz de pai pra filho, a esquerda um pouco mais adiante vejo o carnavalesco entristecido na deprimente quarta-feira, numa posição mais elevada observo a pompa do trovador elétrico em seus cânticos contemporâneos, com um pouco mais de classe avalio o tocante orador de praça com seu chapéu repleto de denários, em suma exibição parlamentares cavalgam em justaposição, ainda que escondidos percebo a presença de nobres cavaleiros detentores de informações úteis, diria até que essenciais para o bom funcionamento do ordenado do carrossel, o poliglota de tão atinado relincha sobre seu carregador em fusa comunicação, tem aquele que está sobre o camelo reflexivo em sua ardente sede, tem o insaciável guerreiro que flerta com o perigo, maluco também tem, o marabalista equilibra-se solto, com enorme destreza gatunos giram em bando, aterrorizam os desatentos da noite que giram felizes fotografando o belo cenário luminoso, o monarca não se atreve a montar e se acomoda na esplendorosa carruagem, os alegres eunucos cavaleiam levemente, no mesmo circuito juízes condenam e absolvem sobre seus penitentes potrancos, todos esses desafinados, parte desses afinados, de qualquer modo o fluxo desses personagens maquinados na existência corre em ciclo único, não se sabe onde desemboca, onde é que está a brecha desse carrossel de fogo, dessa roda de gelo, se é o giro rápido que os lança para fora, se é o giro lento que os enfada, não vi ao certo se são cavalos de madeira, de plástico, de ferro, sei apenas que é matéria insolúvel, não há poluição ou tragédia natural que pare com o giro dessa briosa alegoria circular, saibam apenas que é dentro dela que o ser montado se formará, observará, estagiará em torno de todos ali, fora dela nada se sabe, dentro dela apenas busque informações liberadas, escapadas, perdidas e voluntárias, une-as e forme-se pro bem, forme-se pro mal, pois queira ou não queira, cedo ou tarde, terminará o carnaval, e o carrossel meu bem, continuará a girar, girar e girar.