terça-feira, 25 de julho de 2017

Let's play ball


 Caiu a par, eu mato as ímpares, mas caiu a par e não adianta dizer que foi por culpa do taco, dizer que ele espirrou, de fato espirrou, já nem me lembro mais se mato as azuis ou as amarelas, pouco importa as cores agora, joga o jogo que tá tudo certo, mas antes, desce outro Campari, ora, não há aqui quem repare nesse jogo, nem eu estou reparando, na verdade não passa de uma boa desculpa pra falar daquela boca desenhada que jamais beijei, pra divagar sobre os verdes olhos que disputam minha atenção com esse mar azul a minha frente.

 Não é culpa da maresia, nem das doses de bourbon, essas tantas e sucessivas tacadas erradas tem outra razão, não pronunciar o nome daquela moça que motiva esse jogo de bilhar me traz esse desequilíbrio, sei que pra poder pronunciar esse nome abertamente a mandinga tem que ser da boa, não haveria água ardente, pimenta e arruda suficientes, até nas mãos que bateriam o tambor faltaria fulgor, mesmo que houvesse as melhores especiarias ainda assim muito faltaria, sendo assim, assim como esse jogo de bilhar, o importante não é ganhar, joga o jogo e vamos lá.



quinta-feira, 20 de julho de 2017

Lenitivo



  Ao desembarcar em Kattegat, o navegante viking calorosamente saudado no porto pelas mocinhas francesas, jovens polacas e por batalhões de loiraças, surge sob a vertigem do ópio ao qual se viciou, ópio que lenia a ferida de guerra que o atormentava, o brado em saudação a chegada do aplaudido guerreiro nórdico foi silenciado pela brisa hipnótica na qual ele estava submerso, as pupilass contraídas o impediam de testemunhar a plenitude da festividade que lhe fora oferecida por seus simpatizantes, o Dragão do mar estava em um multiverso alheio àquela festança que o aclamava, tempo e espaço distorcidos, o triunfo de sua revolução confundia-se com o fracasso do seu universo introspectivo, seu mundo agora era paralelo, prazeres e medos dependiam de mais algumas boas doses daquela substância que o amparou nos momentos de dor, daquelas doses que o inspirou rumo a vitória.

 Séculos depois outro herói encontrou nas substâncias químicas o necessário repouso, metralhadoras de flashes  que castigavam os olhos insóbrios do anjo de pernas tortas só eram suportadas por conta do profundo grau etílico ao qual o herói do  bi campeonato mundial estava mergulhado, aquele maldito afã de seus fãs era um grande tormento ao amado Mané, a lisura e habilidade mostradas dentro de campo não tinham a mesma eficácia para driblar a imprensa e escapar da sufocante perseguição, imprensa e fãs entristecidos por presenciarem um ídolo, um grande atleta entregue a embriaguez profunda, mas eles mal sabiam, não fosse esse mesmo composto alcoólico, Garrincha não teria encontrado a necessária inspiração para nos levar a conquistar o mundo no Chile em 1962.

 Não se pode negar que as drogas ao longo dos séculos tiveram grande contribuição no mundo da arte, elas traziam aquele estímulo a mais, a capacidade criativa escondida no âmago do artista era despertada pelo poder das drogas, as substâncias entorpecentes iluminavam a mente perdida na dor e com isso a obra de arte era beneficiada pela inspiração catalizada pela magia das substâncias químicas.

 Na arte da Guerra e na arte da bola, Ragnar Lothbrock assim como Mané Garrincha escondiam por detrás das drogas um rosto de mulher, o rosto que surgia sob o efeito da droga que inspirava o desembainhar da espada, que inspirava o arremate certeiro que estufava as redes. A dependência se justifica então, pois o uso abusivo do ópio e do álcool era a fuga da dor presente, mas por outro lado também era a busca pelo prazer ausente.