segunda-feira, 27 de março de 2017

Burn


 O picar dessa cebola trouxe à mesa o pecado da ira, sua péssima coordenação motora ao moer esse punhado de ervas finas não é razão suficiente para explicar minha agressividade e remir minha culpa, meus olhos queimando talvez expliquem minha grosseria, atribuo então meu destempero à acidez que fluiu da cebola, não, não é o ardor da cebola a razão dessa impaciência, não são os olhos na dor, nem a assadeira ainda não polvilhada, nem o forno ainda frio com a chama apagada, essa fúria gratuita nasceu desses mesmos olhos agora ardendo em flamas, maldito dom da visão, a porta de entrada aos desejos, um convite ao pecado da cobiça, a ira então brotou do anseio, do desejo que penetrou por entres os olhos, justo então o castigo que a cebola deu a eles.

 Resta saber se essa água quente que espirra em mim é resultado do seu destrambelhamento, ou se é vingança em resposta a minha estupidez, suponho não ter sido tão rude a ponto de merecer um banho de água fervente, ao contrário da visão, o sentido do tato não teve participação no nascimento desse desejo, não merecia ser escaldado, venho então em defesa do paladar e do olfato, assim como o tato, paladar e olfato já são suficientemente castigados pelos anseios e pela vontade, pelo desconhecido prazer, a exclusiva experiência dos olhos e ouvidos inflama a gana do olfato ansioso pelo misterioso cheiro, incita a sede do paladar pelo secreto sabor e dá ao tato a temperatura ideal para sentir o desconhecido calor.

 Difícil será defender o dom da audição, tão culpado quanto o dom da visão, aquela agradável sonoridade captada pela audição produz um desejo pecaminoso de tom maior, creio que por isso a penitência aos meus ouvidos seja diária, a cada play dado na casa do vizinho surge o castigo ao meu ouvido pecador, todavia, benditas sejam elas, audição e visão, culpadas e privilegiadas, os dois únicos sentidos que têm acesso a esse desejo, afortunados por sentirem o deleite da contemplação.

 A exclusividade que esse prazer dá aos olhos e ouvidos está criando uma desfunção nos cinco sentidos, tal desequilíbrio está afetando meu sistema sensorial, olfato, paladar e tato estão insatisfeitos, estão se rebelando contra o corpo, o dom de enxergar e ouvir estão saciados enquanto os demais sentidos padecem diante dessa vontade.






sábado, 4 de março de 2017

Quarta-feira



Maldita ressaca! De tão grande que é esse mal estar matinal, essa fumaça na minha cara logo pela manhã pouco incomoda.

Passe pra lá com esse cigarro verde e me traga aquela água bem gelada que nos batiza e nos liberta nas manhãs de carnaval, muito se fala nas tristezas que duram por longas noites, mas nunca ouvi dizer sobre as angústias que surgem pela manhã, essa trágica quarta-feira que nos traz de volta ao mundo real só não é mais fatal, pois Mário Sérgio já nos avisou que o mundo não é de uma só manhã, então deixa correr, deixa passar, deixa rolar, de qualquer forma esse despertar é de fato cruel, ele nos revela que todo carnaval tem seu fim, que o sonho bom que ficou pra traz pode não mais se repetir, bem que me avisaram dos riscos de mexer com o sagrado, pior é mexer com o profano, pior ainda é mexer com os dois simultaneamente, resta agora colher as consequências desse atrevimento.

A mente ainda inflamada estimula o despertar, vou então ver se há algum feitiço capaz de dar fim a essa alucinação póstuma, curar essa perturbação dará novo fôlego, me dará astúcia para esta quarta-feira nunca mais em mim chegar.


quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Dama de Copas


 Virou o valete, mas a carta que preciso é um rei de espadas, não vou aqui culpar a falta de sorte, é preciso também certa habilidade nesse jogo de blefe, nem sei mais qual é o placar, já perdi a conta, o ponteiro do relógio avança ferozmente e revela que não há aqui alguém ligado nesse jogo, a atenção está na temperatura do chope e nas minhas palavras que descrevem aquele maldito encontro, enquanto eu falo um pouco mais sobre aquele cabelo vermelho, o rei de espadas enfim surge mas não impede que eu prossiga a dizer sobre o movimento ardil imposto pela calça marrom que ditava aquele caminhar, caminhar sob a noite que destacou o tom de cobre da cabeça às pernas e assim reluziu a pele branca, realçou a face eclesiástica.

 Surge então a dama de copas, a arte impressa nas cartas segue há séculos a tradição das figuras do renascimento, o que faz com que um dos ouvintes me diga que na verdade eu estava descrevendo a dama de copas que acabara de surgir na mesa, entendi então a origem do impacto daquele ligeiro encontro, Michelangelo e da Vinci certamente encontraram com os ancestrais daquela moça de calça marrom, a dureza do regime monárquico, a difícil era dos Reis não impediu tais artistas de pincelar suas musas, de expressar o efeito que também senti séculos depois, se trata de uma dádiva hereditária, uma força milenar que avançou através dos tempos para assombrar o dias hoje.