quarta-feira, 25 de julho de 2012

Energia volátil


O monstro da bateria Neil Peart líder e poeta da progressiva banda canadense experimentou o doloroso instante da morte, experenciou a perda de sua filha, viveu uma desastrosa calamidade, foi submergido assim a intensa dor, tais circunstâncias propôs a Neil o caminho da busca, lançou-lhe à Odisséia, lhe pôs na estrada rumo ao incerto, essa fuga trilhada nas gélidas e briosas estradas do hemisfério norte ao norte do Canadá fez de Neil um ser anonimo, sem nome, sem identidade, ele e sua venenosa Harley que cortava ventos e folhas, montado em sua moto feito um cavaleiro sem sela e sem camisa, um cavaleiro que cavalga por entre as estações em busca de respostas, o pranto de Neil causado pela casualidade que levou-lhe o amor de sua filha foi quem roubou Neil de seus fãs durante esse longo período de encontro consigo mesmo, mas ele voltou, voltou forte, a dor sangrou, cicatrizado, foi medicado por distintas atmosferas respiradas pelos cantos e barrancos por onde sua motocicleta esteve, o bom baterista não se manteve estático, partiu em busca da cura, mirou a cura e foi curado pela diversidade alquimista, pela simplória espirituosidade, pelo amor, pela quente paixão de cidadelas que ardem sob  chamas lunares, curado, voltou para retomar o Rush que o aguardou pacientemente, esse retorno revelou um poeta mais firme, um percussionista mais leve, as escolhas e adesões de Neil por onde esteve lhe deram nova identidade, esse caminho de liberdade, de livres escolhas, lhe embelezou, a mesma beleza adquirida apenas em lugares onde se chega de barco, talvez nas circunstâncias do século XV o tempo de cura para Neil teria sido maior ou talvez poderia não ter encontrado essa conquistada paz, pois não haveria motor para transladá-lo sobre  rodas em velocidade sonora, certamente o artista do século XV em cima de seu cavalo no ato da fuga  dispunha de obstáculos distintos aos de hoje, porém dispunha da mesma liberdade existencial que lhe permite escolher o que é proposto pelo meio externo a ele, escolhas ruins e boas que no acúmulo vão dando forma ao caráter do personagem, opções lançadas, opções soberanas e independentes à existência do ser ao qual são propostas, opções que caracterizam continuamente a mutante identidade do artista, poderia então o personagem se mover por trilhos a bordo de uma fúnebre maria fumaça ou voar com classe em um fino jato, compete a ele decidir o meio de locomoção de acordo com  seu propósito durante a viagem,  se trata do passageiro que hora opta pela nave, hora opta pela locomotiva, em momentos se entrega à paixão, em momentos se condena ao rancor, nesse caso o único fenômeno arbitrário é não poder escapar dos tantos encontros que a superfície e suas casualidades lhe submete, encontros que lhe apresentam novos modelos e novas formas, novas opções a serem assimiladas e novamente reformular a identidade em constante e infinita mutação, com isso, a força circunstancial de eventos que ocorrem das mais variadas formas, sejam elas catastróficas ou prósperas, é o que determinará o tom da beleza, a velocidade da motocicleta, se será barco a remo ou à vela, é o que formará a identidade do ser, seja ele gênio ou bobo, pois se hoje ela se foi, amanhã Neil partirá, mas se hoje ele for fogo, amanhã se apagará.

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