quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Eu não tenho tempo.

No sétimo dia o senhor descansou, um cansaço curioso, a conotação desse cansaço cria uma incógnita, visto que o onipotente Jeová está a cima da limitação fisiológica humana, disse ontem a meu pai que estava cansado, vi em seu olhar um enorme ponto de interrogação, "esse moleque está cansado de quê?" "Não o vejo fazendo esforços físicos", talvez o cansaço de Deus seja igual ao meu, um cansaço de sobrecarga espiritual, por isso, tirei o dia de ontem para descansar e a bendita chuva contribuiu com o meu ócio, acordei de manhã não olhei no relógio mas vi que ainda era antes do meio dia pelo clima matinal, selecionei a discografia completa de Ronnie James Dio para me envenenar no tenebroso heavy metal, objetivava um descanso sem paz, queria ser atormentado pelo subliminar, parar o corpo e acelerar a mente, completada a sessão de DIO fui condicionar as artérias com B.B.King, a sua Lucile me levou ao sono profundo, pela primeira vez me vi sonâmbulo pelo corredor da minha sala, estava buscando algo que a muito não tinha, essa minha busca novamente me feriu nessa mesma sala, andando procurando pelo inacessível escorreguei no chão húmido em virtude das reformas que meu castelo passa e acordei desorientado, felizmente dessa vez não estava com um copo de vidro na mão, levantei pensei em tomar um banho mas voltei pra cama para retomar minha sessão de absorção do Mistério, dessa vez coloquei Malte & Vinil, tentei esquecer da essência desse som que foi criado por nós e ver algo que não vi no processo de criação, incrivelmente vi, vi o poder desse som, e sei qual foi e qual é a fonte dele, essa fonte valiosa não tem valor pois ela mesmo não se valoriza pelos valores que a cercam, por isso valorizei os valores paralelos que se valorizam, nesse ritmo caí no sono novamente, como o repertório era curto despertei pelo silêncio e fui alimentar meu corpo com caldo de mocotó para vigorar o físico pois a mente estava inflada e explodindo de tanto alimento, nesse ritmo fui até altas horas, as 23 horas decidi ir para o mundo real confraternizar com umas putas que me cortejavam ferozmente, decidi atender a esses clamores e exercitar a gana da Correagem, pus meu tênis novo e ao sair de casa me deparei com uma fina chuva e ciente de que o indomável Luiz Gonzaga Correia meu pai não iria liberar o carro para tal intento e para evitar a fadiga voltei pra minha cama para cultivar esse dia de folga, o meu erro foi colocar Led Zeppelin, pois ao tragar a tradução do sintetizador de John Paul Jones surgiu-me o desejo de ir a um boteco qualquer confraternizar com algum panguão ou com alguma cachaceira independentemente do nível, esse súbito interesse prevaleceu e mesmo tendo a opção do guarda chuva optei por contemplar o choro do céu sem proteção, apenas trajei meu famoso sobretudo verde e fui sem destino com o destino de parar no primeiro boteco que me inspirasse, antes de prosseguir rumo à seleção de botecos, passei numa boca de tráfico perto de casa para pegar uma lata de Skol pois os mesmos são incapazes de vender Brahma e vi o tamanho do temor que o tamanho da minha barba causa naquele bando de nóias, eles não tinham troco para notas de cem e não queriam me vender, mas a fixação do meu semblante negro os persuadiu de modo temeroso, portanto eles cederam, parti e logo na seguinte esquina entrei num bar, os presentes no bar eram uma moça de estilo rapper e um nordestino pernambucano, quando entrei no estabelecimento fui recepcionado amigavelmente pelo dono do bar, dei a ele o cd "Riding With The King" e ele gentilmente interrompeu a black music que o presente casal ouvia e pôs a faixa número cinco conforme eu havia pedido, sentei na mesa de bilhar com minha garrafa de cerveja na mão pensando em como iria introduzir o diálogo com os "colegas de bar", quando dei o primeiro gole o rapaz pernambucano perguntou-me que tipo de música era aquela que eu estava ouvindo, antes que eu respondesse a mocinha que estava com ele disse que me conhecia e que estava espantada com a mudança que sofri da infância para a fase adulta, as palavras dessa moça levaram-me à reflexão da evolução humana, das mudanças pelas quais passamos com o tempo, dos aprendizados que adquirimos e do tempo que perdemos com sentimentos banais, ela lembrou-me da época em que me dava pedradas pelas pirraças de criança que fazíamos e da emoção que sente em entender as fases que o ser humano passa, isso me levou ao entendimento de que nos próximos anos irei me envergonhar das minhas atuais limitações em virtude do progresso para o qual estou caminhando, essa é a tendência da humanidade, pelo menos para os que não se limitam e não se contentam com aquilo que é imposto pelo MEIO, pelo menos para aqueles que não tem rabo preso à nada, que fazem e vivem conforme o desejo próprio, não tem sua identidade dependente à identidade alheia, são essencialmente talentosos desvinculados a interesses materiais, essa positiva concepção de vida é para os que vivem em abundância por não se esconderem atrás de pequenas fortalezas, no futuro irei bordar um retrato de tudo aquilo que não sei dizer, mas enquanto isso irei correr atrás da consolidação do presente pois o meu grande clichê é: A vida está passando e eu estou sem tempo.

5 comentários:

  1. Ainda bem que eu não tenho filho homem para descansar tanto, porque na verdade até Deus que não fazia nada descansou

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  2. e aí vai pensamentos de um negro da pesada pra dialogar com seu texto:
    "Nós não somos o que gostaríamos de ser.
    Nós não somos o que ainda iremos ser.
    Mas, graças a Deus,
    Não somos mais quem nós éramos."
    Martin Luther KING!!!

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  3. Estamos numa constante ascenção, Há aqueles que alimentados pela farsa caminham para o retrocesso sem perceberem.

    Camila de hoje, Camilona de amanhã!
    Son of Gun de hoje, Hoochie Coochie Man de amanhã

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  4. Pois é meu bom e velho Ronaldo, "os caminhos estão sobre a mesa".

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