quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Dama de Copas


 Virou o valete, mas a carta que preciso é um rei de espadas, não vou aqui culpar a falta de sorte, é preciso também certa habilidade nesse jogo de blefe, nem sei mais qual é o placar, já perdi a conta, o ponteiro do relógio avança ferozmente e revela que não há aqui alguém ligado nesse jogo, a atenção está na temperatura do chope e nas minhas palavras que descrevem aquele maldito encontro, enquanto eu falo um pouco mais sobre aquele cabelo vermelho, o rei de espadas enfim surge mas não impede que eu prossiga a dizer sobre o movimento ardil imposto pela calça marrom que ditava aquele caminhar, caminhar sob a noite que destacou o tom de cobre da cabeça às pernas e assim reluziu a pele branca, realçou a face eclesiástica.

 Surge então a dama de copas, a arte impressa nas cartas segue há séculos a tradição das figuras do renascimento, o que faz com que um dos ouvintes me diga que na verdade eu estava descrevendo a dama de copas que acabara de surgir na mesa, entendi então a origem do impacto daquele ligeiro encontro, Michelangelo e da Vinci certamente encontraram com os ancestrais daquela moça de calça marrom, a dureza do regime monárquico, a difícil era dos Reis não impediu tais artistas de pincelar suas musas, de expressar o efeito que também senti séculos depois, se trata de uma dádiva hereditária, uma força milenar que avançou através dos tempos para assombrar o dias hoje.