quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Viver é melhor que sonhar

O ato de sonhar em si é uma das práticas mais bem sucedidas do ser, nele, no sonho, concretizamos ações que fogem das limitações físicas, somos divinos e demoníacos, no sonho não sabemos ao certo se somos demoníacos ou divinos, quando estamos sonhando o nosso principal bem fica em repouso, em recuperação, através do corpo sentimos sensações, prazeres, dores, através do corpo sonhamos, imergimos no mundo metafísico, no mundo criativo, no mundo criado, ao sonhar caminhamos em velocidade corrida, corremos e não acompanhamos o andar , conseguimos reunir ídolos de épocas distintas, no sonho estamos em contínua metamorfose, se é possível perder os pelos, as banhas, o cabelo cresce, a estatura diminui, nos tornamos crianças com volúpia adulta, o grito é tácito, o sussurro é estrondoso, nele tudo é lícito, fácil, o sonho quando difícil lança o despertar, o caso é que o sonho traz tudo e todos ao sonhador, tudo e todos em um mesmo espaço, basta sonhar e tudo lhe será permitido.

O ato de viver é penoso, para viver devemos seguir leis, ordens, padrões, disciplinas de diversas vertentes, é necessário a supressão da vontade para não ser dissolvido da vida, viver diferente de sonhar abrange limites, as sensações do viver extrapolam as imensidões que compõem o sonho perfeito, o gozo da vida real prevalece sobre o frenesi de quando sonhamos, sobre a alucinação e o delírio do supremo prazer adquirido no sonho.

Aos cinco anos de idade sonhava com meu irmão mais velho, eu, ele e os demais na praia em plena harmonia, porém, a sensação de vê-lo chegando em casa cansado de tanto trabalhar me produzia uma alegria muito maior do que a alegria vivida na lúdica praia.

Não conseguia estimar o quão prazeroso seria fazer par com a moça mais bela do primário na quadrilha da festa de São João da escola, estar com ela no sonho era algo memorável, todavia, quando ela pegou em meu braço e com um profundo olhar me selecionou, fiquei bastante surpreso, contive minha euforia sem abrir mão do prazer de dançar com a tão ambicionada menina.

Nesse conflito entre o prazer sonhado e o prazer vivido existem controvérsias pelas vantagens e desvantagens de cada situação, quer seja ela no sonho ou na vida real, por considerar isso, analisei ambas situações experenciadas por mim ao longo dos últimos anos e percebi que viver é melhor que sonhar.

Quando dei o primeiro abraço em Larissa Conforto senti o conforto da vida real.

Quando olhei pro palco e entendi que ali estava Buddy Guy afastei de mim a dose tripla de uísque para me manter acordado diante da bela realidade que me fora concedida.

Ver o rei do Blues B.B.King ao lado de minha Rainha triplicou as doses de vinho que me eram servidas e através dessas doses exageradas minha garganta pode confirmar que eu estava acordado.

Contudo, mesmo sendo capaz de distinguir a realidade do sonho, sustento uma dúvida cruel, todo ser mistificado assim como deuses e lendas são objetos e personagens de sonhos, ao longo da minha real vida mistifiquei uma personagem real em meus sonhos, uma personagem distante em idade, tamanho, força, prestígio e toda sorte de valores positivos, a razão pela qual eu a mistifiquei se deu ao fato da impossibilidade de uma criança atender o desejo de uma linda mulher, de fato se trata de uma linda e preponderante mulher, enquanto eu aprendia a ler ela ensinava os meus educadores a me ensinar, em meio a tantos sonhos a bendita ampulheta do tempo a pôs em meu caminho novamente, pôs o rebelde menino hoje homem barbado diante da ainda perfect mystical woman, estive diante dela em tantos sonhos, em diversos continentes, planetas, refúgios, paraísos, nos sonhos sempre me dei muito bem diante da supremacia dessa querida personagem, contudo, estar diante de seu profundo olhar, do seu escondido sorriso foi algo além do que eu pude agüentar, fui reduzido, dissolvido por completo, não pude resistir a tamanha graciosidade, resta agora descobrir se esse mencionado prazer de estar junto da admirável Nancy Agostinho foi real, não saberia dizer se ela realmente estava ali, apenas eu e ela, será que estávamos, será?

Um comentário:

  1. O nível de embriaguês que me encontrava quando redigi este texto traduziu bem os tantos erros de digitação, não poderia ser diferente, afinal foram mais de dez anos na expectativa de revê-la, deveria no mínimo ficar bêbado. Quanto aos erros, já estão corrigidos.

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